Escolas públicas precárias, poucas com banheiros utilizáveis,
mas cheias de alunos. Taxas de alfabetização
crescentes, mas ainda pouco acesso ao estudo universitário.
Mortalidade infantil caindo expressivamente, mas homicídios
de jovens aumentando assustadoramente. Tecnologia
de ponta em áreas como exploração de petróleo e biocombustíveis,
mas indústria refém do setor primário. Geração
de empregos e elevação da renda média nacional, mas taxas
de juros de espantar qualquer economia do mundo. Poucas
pessoas com um poder aquisitivo capaz de pagar milhares
de reais numa sandália; mas milhões de cidadãos com poucos
trocados para pagar o ônibus.
Mas, mas, mas... Este é o Brasil, país das contradições.
Poucos lugares no mundo apresentam contrastes tão intensos
e enraizados, mas (olha ele aí de novo) com tanto potencial
de crescimento. Uma notícia é boa: a democracia parece ter
finalmente se estabilizado após ter sido espezinhada tantas
vezes em nossa história. E isso é fundamental para um desenvolvimento
de fato, com instituições fortes. Uma mudança
expressiva que ajuda não só a rever alguns índices, como
também a confiar mais neles – uma espécie de crédito para o
futuro. É o que mostra nossa matéria de capa: o Brasil parece
mais do mesmo, mas não é. Por causa disso, muitos livros didáticos
de geografia têm revisado as análises pessimistas com
as quais eram encarados nossos avanços sociais.
Para falar em democracia, primeiro é preciso compreendê-la. É um conceito antiqüíssimo e já bastante difundido – por isso muito pouco consensual. Apesar disso, é
possível extrair dele valiosas lições, como mostramos na
seção Teoria & Crítica. Para muita gente, por exemplo, a
China, com seu regime comunista unipartidário, configura
uma república antidemocrática. Os tibetanos, certamente,
são dessa opinião e, por isso, têm aproveitado a notoriedade
olímpica para protestar contra o governo chinês – veja
no artigo “Entre o céu e o inferno”.
Discutindo Geografia traz também nesta 20ª edição uma
interessantíssima entrevista com Ana Fani Alessandri Carlos,
um ensaio fotográfico sobre o “lado b” de Paris, um artigo sobre
as falésias e a ocupação humana do litoral, um perfil de Delgado
de Carvalho, um relato de viagem às Guianas e ao Suriname,
e uma análise da polêmica arte de Christo Vladimirov Javacheff
e Jeanne-Claude Denat de Guillebon, que literalmente “empacotam”
paisagens inteiras, como prédios, árvores e até ilhas.
Boa leitura!